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Category — Os Meus Livros

Crónicas Os Meus Livros – Um Sul a Norte

Viagens

Fevereiro, no Norte, junto ao mar.
Correntes d’escritas ano quarto da minha memória.
Cinco palavras: “agradecer, começar, partir, coexistir, consistir” de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto. Palavras podem ser chaves, compete a cada um descobrir que portas com elas conseguirá abrir.
Cai-nos no colo a frase de Sophia que, como bem observou, vale toda uma vida literária: “Navegar sem o mapa da viagem que fazíamos”. E depois a avó Aurora e a mãe Sofia, duas mulheres, ambas viajantes, cada uma a sua maneira. Uma dentro de casa onde recebe o mundo, outra virada para o mundo onde procura a casa. E sob a afirmação de que teríamos desaparecido se não tivéssemos partido quase parece atirar-nos para novas idas. Mas isto já são reflexões partilhadas nos degraus do auditório que se vêm repletos de gente logo desde o primeiro dia. Cada um vê o que quer. Somos portugueses, os iletrados da história, os improvisadores do destino.

Do Brasil veio Rubem Fonseca, escritor admirado por muitos, subitamente ao abrigo de qualquer maldição ou desconforto pela ousadia da sua escrita. Um escritor que se recusa e por isso se torna desejado. “Sou peripatético…” Diz e lá vai deixando cair o discurso rigoroso do improviso ensaiado da idade e da experiência. Leu Camões, proclamou amor à Língua Portuguesa e emocionou a plateia, mas emoção maior foi a lembrança de, no ano passado, Juva Batella a dizer, num tom corrido, de cor, de coração, a Toada de Portalegre, de José Régio.

O escritor de Rubem Fonseca, “louco, alfabetizador, motivador, paciente, com imaginação”, é paciente em busca de palavra certa. Não há sinónimos, diz, “uma palavra não vale outra do mesmo significado”. Paciência e tempo para experimentar cada uma como um vestido justo em corpo de mulher numas correntes que começaram sob o signo das mulheres que marcam sempre o destino dos homens que traçam o seu destino de mulheres mais do que deviam. Um estranho poder desperdiçado, o delas. Ao ler “Humilhação e Glória” de Helena Vasconcelos, ou a olhar à nossa volta, sabemos que não estamos tão longe quanto devíamos estar desse tempo de feminino cinzento.

Eugénio Lisboa leva-nos em périplo sobre os ganhos dos escritores fazendo-nos sorrir perante muitos pesos, muitas medidas no pagamento da escrita.

Estavam todos a contar connosco e nós a contar com eles. Não posso nomear todos. Mas impossível esquecer a força telúrica de Ana Paula Tavares. Um brilhante texto tecido com a emoção na voz a dar corpo às palavras.

Ao fundo estende-se o mar. Tanta água como a que João de Melo guarda na memória para ainda rescrever a infância no acerto da vida. Todos os escritores e poetas são arrumadores da infância, nisso gastam rios de papel para conseguir a vasta obra ou um pequeno pedaço de papel onde escrevem uma frase, a frase, a sua, que pode demorar uma vida a achar, para dizer à beira do naufrágio que é a morte: mãe, pai era isto que eu tinha para dizer. Se dito será ouvido.

Relembro a viagem dos ancestrais de Moacyr Scliar, por ele tão bem contada, uma última vez. E, no mar, ainda podemos ver ao longe um sonho magnífico contado nas palavras e nos gestos de Malangatana. E, do fundo das águas, Rui Costa regressa na poesia dita por Margarida Vale de Gato. É assim a vida passante, as memórias são de quem as apanhar e guardar. Não servem a nada a não ser para castelos de areia que ficam guardados dentro dos olhos.
O nunca mais é a batalha de cada manhã e de cada fim de tarde. E nesse arco de sol se inscreve uma linha de vida que só faz sentido nas múltiplas formas de ser partilhada.
Rui Zink traduz a versão poética da mulher/mãe da Ana Luísa Amaral. Sabe bem ver que nas tréguas que a póvoa permite eles se lêem uns aos outros.
João de Melo, o primeiro escritor que ouvi ao vivo num já longínquo ano, no Museu Nogueira da Silva, em Braga, disse na altura de falar do seu mister ter perdido os seus papéis. Onésimo logo avisa, num registo sempre bem-disposto, que convoca cada vez mais seguidores, que a desculpa já tinha sido gasta mas sendo verdadeira que lhe restava? Ouvi-lo foi uma prova do seu talento, a relembrar o encantamento com o seu primeiro livro, “Gente Feliz com Lágrimas”. Ficou a vontade de o reler, ao fim de todos estes anos.

Por vezes sofremos com a verdade ou com a sua ausência. A verdade nem sempre pode ser inteira. Alguns cortam-na às fatias e assim ela parece menos pesada, menos perigosa, mais inócua também. E quem junta dois pedaços da verdade pode até ser que não o faça pela ordem do corte e leia uma nova verdade.

Numa escola. Num dos muitos encontros com alunos, Onésimo falou da importância da leitura. “Leiam, leiam…” que lá fora (da escola) o saber ler é uma arma contra a exploração. João de Melo diz que não se separa dos livros, como não se separa da sombra e que a leitura é também uma questão de voz, João de Melo o relembra perante essa jovem plateia. Tudo o dito nos chega com esse acrescento, a voz do criador das palavras, o seu gesto, o seu jeito de olhar. E mais um episódio do Onésimo (os episódios dele, todos sabem darão um dia um longo caderno de risos entre e sobre coisas sérias). Um aluno surdo, fazia leitura labial, questionado no final da aula sobre dúvidas aponta a vaga dificuldade de entender o seu sotaque.

Muito talento genuíno que ali se passeia bebeu palavras escritas. Reinventou-as. Acrescentou o mundo. Mesmo para destruir e fazer de novo e diferente é preciso conhecer o já feito.
É preciso dizer, até que alma doa mas a mensagem passe, que os livros são bens essenciais como a comida e ar que respiramos. Podem ser os livros em todos os formatos mas a leitura só pode ter a forma do silêncio e da calma.
É de leitores que as Correntes se fazem. Leitores as Correntes farão.

Um vereador da Cultura, que devia ser franchisado, sintetizou afoito, em meia dúzia de palavras toda a nossa inquietação com a cultura de ministério, de secretaria, de secretária, de vão de escada, de rua ou lá o que será e se verá(?). Melhor que tivesse sido António Sousa Homem o escolhido, sempre lhe dava para explicar, pacientemente, o porquê das coisas serem assim ou já não serem.

O mar enrola tudo num ruído, muitas palavras resistem pelo tempo como rochedos e outras partem-se em areias… Tudo são marés que apenas os nossos olhos levam. É de efémero que estes encontros se constroem. Como um teatro, como poetas fingidores a fingirem tão completamente. Na verdade não nos interessa a nós que seja dor ou riso. Apenas queremos que seja genuíno o fingimento, que aquelas palavras nos toquem, pela viagem, ou pela emoção, pelas respostas ou pelas perguntas que trazemos.

Porque o mapa de ontem já não nos serve inteiramente na viagem de hoje, refazemos o mapa e a viagem navegando sempre.

“Quanta fronteira parada
À espera de uma passagem
Que enfim invente uma estrada
Onde agora só o grito
É a viagem”

De uma canção dedicada à memória de Violeta Parra; Projecto Periplus – Deambulações Luso-Gregas; de Amélia Muge e Michales Loukovikas

Março, no Sul, junto a outro mar.
Biblioteca de Faro onde esta crónica se encerra.

Sílvia Alves

March 17, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – O Eugénio dos Livros

Ele’génio

Sinais de alerta. O sangue tornou-se-lhe espesso como areia quente e a vontade revelou-se como uma manhã – sim… tinha acabado de ler Truman Capote quando, em plenas Correntes d’Escritas, Eugénio sentiu a compulsão da escrita.
No fundo a escrita sempre estivera no espaço intermédio entre os olhos que leem e o cérebro que entende, como um filtro que gosta de transformar os textos visionados em novas ideias digeridas e amalgamadas que, separadamente, Eugénio considerava «escrita cerebral» ou «manifestação de criatividade». Felizmente, e até então, sempre a compulsão tinha estado controlada pela dose adicional de preguiça com que fora dotado à nascença; mas naquela hora, sentado na desconhecida cadeira no auditório da Póvoa de Varzim a ouvir a magia da escrita a transformar-se em som, Eugénio cedera à tentação: decidira tornar-se escritor. Mesmo antes de escrever, claro está.
Era letrado – lera imenso, o que aos olhos de editores como Maria do Rosário Pedreira seria a certeza de poder ser um escritor −, tinha coisas para dizer («muitas» sentia ser exagerado dizer), tinha imaginação, paciência e perseverança. Pelo menos assim o achava e quando ouviu falar da página em branco, já se imaginava de crise em crise/ de dor em dor/ no vívido estado de alma/ que era o do escritor. Eugénio sentia que a escrita passava a ser a sua grande pulsão, a sua forma de ser (e aparecer). Sonhava um dia estar sentado naquelas cadeiras, em cima de um palco com centenas de professoras atentas ao mínimo suspiro literário.
Oh, como seria bom agradecer à organização, dizer que não preparara nada para, logo de seguida, começar a falar de improviso sobre a escrita, esse amigo dos tempos noturnos.

Chamem-me Eugénio. E fala-me ó Musa, desde homem astuto, que num lugar de Lisboa, de cujo nome não me quero recordar, pela palavra criou a luz…

A.V.
Antes de AV não existia Eugénio. Por isso, AV criou Eugénio e todas as coisas que o envolvem. O céu, os livros, a mãe e as árvores, os amigos estranhos e restantes animais do blog. Por isso, mensalmente existirá Eugénio no blog da Os Meus Livros. E tudo isso por obra de AV.

February 29, 2012   1 Comment

Humilhação e Glória na Ler Devagar com Amor

Além do lançamento, não perca a edição de Março da Os Meus Livros, onde Helena Vasconcelos acrescenta alguns pontos de vista aos que já incluiu neste livro.

February 27, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – Matrisokas

O purgatório do cadafalso

«Na sala ao lado a reunião decorria entre comentários dos diferentes intervenientes, a gargalhada alarve que marcava o intervalo entre os oradores e o fumo que pautava o ar por cima das cabeças, aquecidas pelo fulgor dos argumentos cruzados e pela sapiência que enrijece o crânio dos sapientes.»

Lera diversas a passagem mas não conseguia pensar em como transformá-la, fazer daquelas palavras uma fórmula eficaz contra todo o mal que a literatura lhe tinha feito, contra toda a expectativa criada no convite de um editor estranho e surpreendente, como era mr. Black, contra tudo e contra todos, desde que isso não implicasse reformular o seu modo de escrever, pensar e avançar.

Há muito tempo, long time, como lhe diziam os amigos regressados de outras paragens, há muito tempo, pensava, que a necessidade de satisfação atingira níveis preocupantes, ainda mais depois de ponderado o título de Dagerman e outras miudezas intelectuais.

O jantar correu bem. Depois, da mala castanha saiu um contrato feito de palavras quase intraduzíveis, mas que lhe garantiram serem um mantra especial concebido pelo xamã literário contratado para animar as hostes durante os dias da festa. Era o momento de experimentar um pouco de poesia, como quem se aventura pelas drogas mais temidas ao entardecer, só porque ainda há tempo para fazer algumas asneiras antes do final de mais um capítulo.

Durante tudo isto, na varanda em frente, o velhote que ali mora desde que o ilusionista faleceu, sentado num banco de madeira, olha em redor, como quem adivinha o futuro a chegar, apressado, esbaforido, fartinho de avisar e ser avisado…

Regresso ao texto «… aquecidas pelo fulgor dos argumentos cruzados e pela sapiência que enrijece o crânio dos sapientes». E acabo por adormecer, com a certeza de que nos sonhos mais repelentes encontrarei o ponto de fuga para que o desenho destas letras faça sentido.

João Morales
Imagem – Salvador Dali

February 23, 2012   1 Comment

Os Meus Livros de Fevereiro chega às bancas amanhã

Tal como explicámos aos diversos leitores que nos contactaram, um conjunto de problemas sucessivos, alguns deles sem solução, já que incluem o falecimento de alguém, levaram a um enorme atraso na edição de Fevereiro da revista Os Meus Livros, que vai para as bancas amanhã, Quarta-feira (embora só esteja em todo o país na Quinta-feira).

Como tema principal, um artigo de fundo sobre as grandes apostas para 2012, ou seja, um guia sobre os livros que não pode perder este ano, incluindo obras de ficção, não ficção e livros infanto-juvenis.

Quanto às habituais entrevistas, Isabel Zambujal, autora do recente Auto do Cruzeiro do Inferno, transporta Gil Vicente para os nossos dias e José Mário Costa, responsável pelo Ciberdúvidas, festeja connosco os 15 anos do projecto.

Gonçalo M. Tavares lançou novos livros e viu um dos seus trabalhos adaptado para audiolivro. Mais coordenadas para a geografia literária que tem vindo a criar.

Também novidade é A Tempo Inteiro, obra de ilustração assinada por Tamayo Marín, peça de um outro puzzle, este engendrado por Tiago Manuel.

A 23 de Fevereiro começam as Correntes d’Escritas, o mais importante encontro literário do país. Conheça os convidados e os temas deste ano.

As vidas dos reis e rainhas de Portugal suscitam grande curiosidade e dão origem a sucessivas biografias. Fomos tentar perceber porquê e conhecer as mais recentes.

Mais conhecidos pela sua actividade no jornalismo, Miguel Sousa Tavares e Clara de Sousa abrem-nos a porta da sua cozinha.

Capuchinho Vermelho; Bela Adormecida; Pequeno Polegar… muitas destas figuras nasceram na oralidade ancestral europeia e contam com diversas versões. A colecção Contos Maravilhosos Europeus desvenda-nos este universo.

Fernando Pessoa, Plural como o Universo, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, é a grande exposição sobre o universo pessoal do mais importante escritor português do século XX.

No que respeita à OML Júnior, presenças de peso, com livros de Nuno Markl, Carlos Ruiz Zafón e Carla Maia de Almeida, entre outras sugestões.

Além disso, as habituais recensões, notícias, tops de vendas, colunas de opinião regulares, a pré-publicação de Fantasporto Antologia de Ficção Científica (de vários autores, publicado pela Asa), e a crónica de Eduardo Sá. Como habitualmente, tudo óptimas razões para não perder O Guia da boa leitura.

February 15, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – Um Sul a Norte

A resposta

Mudanças. Podemos trocar de casa, refazer o armário da roupa, redecorar a sala e reinventar hábitos que nem sabemos se queremos manter.

Mas não trocamos de livros. Os livros, mais que tudo, enraízam-nos a um lugar, de muitas maneiras, não só no seu volume e peso. Não trocamos de livros. São insubstituíveis. É muito difícil decidir quais os que nos acompanham quando nos lançamos o desafio de ser um pouco nómadas. Levamos os lidos? Os que queremos ler? Os que ainda vivem na nossa memória? Os que guardam as palavras que nos norteiam a escolha de um caminho? Osque encerram os poemas ditos na voz de alguém e que ficaram para sempre cerzidos sobre um tempo e um lugar?

Viajamos até onde uma voz se ouve no meio da multidão que se silencia. E o tempo volta. Em cada estação.

A memória existe dentro de nós sempre tecida de palavras, escrita e lida para não ser perdida.

No meio dos livros.

Existe um sonho.

Ser árvore, perder folhas mas resistir ao Inverno.

Ver passar pessoas com as suas histórias cinzentas, sentada à mesa de um café numa rua da baixa.

Vaguear na cidade.

Entrar nas igrejas, religiosamente ateia, para mergulhar no silêncio que permite escutar o mais fundo da alma.

Seguir um rio, escolher a margem.

Marcaram-me, aleatoriamente, no calendário uma crónica para 14 de Fevereiro.

De que ano? Perguntas tu…

De que ano? Pergunto eu…

Pode ser 2012. Pode ser 2021.

Todos os anos e todas as estações servem para as árvores.

Está frio. Muito frio e na memória ainda o calor de um Verão.

Se a Primavera demorar talvez acabe a queimar os livros para derreter o gelo da morte.

Mas “O que é o Amor?”

O universo está cheio de perguntas.

São as perguntas que nos movem.

“O que é o Amor?”

Se houvesse resposta as bibliotecas estariam vazias.

“O que é o Amor?”

A resposta.

“The answer, my friend, is blowin’ in the wind…”

No alto das árvores rodeado de peixes, búzios e estrelas um homem inventa folhas.

Sentada na terra, uma mulher desenha flores.

O amor é um caminho se for vontade de dois caminhar.

A resposta.

“The answer, my friend, is blowin’ in the wind…”

Amanhã.

Sílvia Alves; 14 de Fevereiro
Imagem: Capa do livro O que é o Amor?; texto de Davide Cali e ilustrações de Anna Laura Cantone; Editora Gato na Lua

February 15, 2012   1 Comment

A Invenção de Hugo, em 3D – Uma viagem do livro ao filme

Amanhã, Quarta-feira dia 8, pelas 18h 30m, no Piso 1 da Estação do Rossio, em Lisboa (mais concretamente, na Sala do Rei), tem lugar uma sessão de apresentação que evoca o filme de Martin Scorcese A Invenção de Hugo (nas salas portuguesas a 16 de Fevereiro), mas também o livro que esteve na sua génese, A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, editado em Portugal pela Gailivro. A sessão estará a cargo de Mário Augusto (jornalista da RTP) e João Morales (director da revista Os Meus Livros).

February 7, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – O Eugénio dos Livros

O Clube dos Livreiros Mortos

Numa altura em que se celebra a vida de Fernando Assis Pacheco − que Eugénio, quando ainda era miúdo, chegou a ver um dia a conversar na rua, mas que hoje a sua mente só o recria morto à porta da Buchholz, com livros a rolar pelo chão como maçãs verdes – lamenta-se igualmente a morte de Portugal, ou melhor, da Portugal, da Livraria Portugal.
Morre a Portugal como morrem ou morreram outras livrarias como a Sá da Costa, itinerário do imaginário eugeniano, da sua ronda de montras e acenos inefáveis – qual aperto maçónico de mãos −, com a madeira das portas a gemer e um pequeno tilintar a sinalizar a chegada de alguém.
Eugénio sente hoje saudades deste clube dos ácaros, saudades daquele cheiro que mapeava o território da impossibilidade. Da impossibilidade de correr, de fazer perguntas básicas, de subir às mesas para gritar Whitman, ou de chegar a muitos dos livros, sempre altos e vigilados por zelosas livreiras, como as da Buchholz. Saudades das salas abertas que se diziam privadas, onde só alguns clientes costumavam entrar e que a mente de Eugénio transformava em gruta de tesouros.
Num tempo em que ser leitor era pertencer a um clube. Era conversar ao balcão como que ao café, sob o candeeiro de mesa amarelado. Era o poder olhar com desconfiança sempre que alguém entrava, com ar de estar perdido e de ter entrado no lugar errado.
− O senhor precisa de ajuda?
− É uma livraria, não é?
Ah!, uma livraria. Não um desses lugares novos e iluminados, com miúdos fardados e um conhecimento de dedos teclando; um lugar de bilhetes, jogos de computador, telemóveis e plasmas colocados à frente, e ao fundo um corredor que dá para as traseiras, para a «secção dos livros».
Hoje, que Eugénio é já crescido, não pode mais frequentar esse clube, já só composto por livrarias mortas. E Eugénio sente-se só, com saudades, vendo-se reduzir o universo real do povo que vive no imaginário.

A.V.
Antes de AV não existia Eugénio. Por isso, AV criou Eugénio e todas as coisas que o envolvem. O céu, os livros, a mãe e as árvores, os amigos estranhos e restantes animais do blog. Por isso, mensalmente existirá Eugénio no blog da Os Meus Livros. E tudo isso por obra de AV.

February 2, 2012   No Comments

Crónicas Os meus Livros – Matrisokas

Um homem de palavras

Bateu à porta e o homem de barbas abriu. Sabia muito bem que ele viria, afinal, eram ambos cavalheiros de palavra. O acordo tinha tudo para ser respeitado, só faltava isso mesmo, ser respeitado. E o respeito pelos acordos está intimamente ligado ao que pensamos deles. Parece óbvio, não é garantido que o seja.
Morava naquele prédio há muito. Sabia de cor o rosto dos vizinhos mais antigos e a sonoridade dos que passavam à porta, uns mais apressados, outros com a calma de quem aproveita o sol. E tanto que ele era, depois do nevoeiro da manhã.
Em frente ao computador revia as provas do texto final, construído depois de muitas alterações e coisas soltas que, afinal, faziam parte. Mesmo as notas à margem, como a necessidade de separar as águas para ver mais claramente eram fundamentais em momentos de decisões e mudanças de rumo. Sabia, pela sua experiência de copista clandestino, que as palavras viajam pelos textos onde as colocamos e às vezes fogem-nos da mão, caem. Partem-se. Ou não. Relia o fragmento de Almada Negreiros que ia fazer parte da encomenda:

«Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não
viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta
côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.»

Retirou da gaveta do meio as coisas que faltavam, colocou tudo junto para não se esquecer e assinalou a amarelo as estradas menos concorridas. Sossego, era o que queria para a viagem.

Olhou para a fotografia de família e conferiu o número de série. 14489. Apagou a luz, saiu sem acordar os restantes elementos da equipa, malta cansada, depois da epopeia de transcrição que lhes ocupara tanto tempo, realizou a última evocação da noite e dirigiu-se à cama. Foi o tempo de se deitar e aconchegar até adormecer. Lá longe, já o chamavam e não gostava de fazer ninguém esperar. É como já se disse: os acordos são para respeitar.

João Morales

January 24, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – Um Sul a Norte

Lojas (de livros)

Algumas grandes e vistosas, outras pequenas e escondidas, todas têm segredos e guardam rituais que resistem à vertigem da modernidade.

Em terras do Liz, de D. Dinis, de castelos e pinhais, há a Livraria Arquivo. Um grande espaço com livros para todas as idades, uma sala onde os mais pequenos reconhecem o seu mundo, histórias para pais e filhos, contadas pela Liliana Gonçalves, uma cafetaria, jornais, exposições, e já perdi a conta a quantas tertúlias com escritores. Houve um tempo pré-crise em que reunia poetas. Não foi há muito tempo. A Poesia dizia alguém a “Metade da Vida”: “não é literatura é outra coisa”.

Os escritores e poetas na política também se tornam outra coisa.

Mário Soares encheu, há dias, a livraria Arquivo até não caber mais uma alma. Poder-se-ia dizer que ninguém estava ali pela pura e dura literatura mas também é inverdade dizer que era pela política. Seria por algo que fica entre uma coisa e a outra: pensamento, ideias.

Um Político Assume-se. Não é este livro de Mário Soares a revelação de qualquer segredo. Apesar do que tem sido dito, fazer luz sobre as sombras só as desloca. Na verdade um político assume-se pela sua capacidade de pensar e de fazer a sua leitura do mundo. Cobraram-lhe muitos a ousadia de ainda não calçar pantufas mas, embora cansado, capaz de passar fugazmente pelas brasas ao ouvir uma apresentação de si que se dispensava tão longa, prova quando fala que está a par de tudo o que acontece no perto e no longe.

Contou um episódio em honra do pai “leiriense da gema” que recebia em casa o pão, os grelos e a morcela de arroz aqui da terra (ninguém teve ainda a ideia de internacionalizar tais iguarias e ainda bem. Porque havíamos de dar meia volta ao mundo para comer uma torrada de pão do Soutocico?).

Conta então Mário Soares que o pai contratou Agostinho da Silva para umas explicações em virtude de, na força da juventude, ter ainda «um pensamento um pouco obtuso». O Agostinho da Silva pergunta «explicações de quê, Latim?» E o velho João Soares clarifica: «ideias, cultura!»

Ora aí está uma lição. Precisamos sempre desse lastro maior da dialéctica conhecimento e pensamento (crítico).

Rodrigues Lobo, que se afogou no Tejo e não sabemos se por o Liz ou o Lena não terem caudal bastante, dá nome à Praça onde os cafés renasceram e os prédios se vão reconstruindo. A provar que nem todo o optimismo está perdido num deles acaba de nascer uma nova livraria temática, a Kanto do Livro. Com quatro pisos, parece uma casa de bonecas, os livros expostos pelas paredes de capa voltada para nós, recantos com sofás, um canto para as crianças e, no último piso uma pequena varanda com vista para a Praça.

Sabe bem sentir numa padaria antiga o cheiro do pão, o ritmo artesanal que permite que as pessoas não sejam atropeladas na grande indústria, algo que os grandes anunciantes da globalização nunca entenderão. Numa livraria também sabe bem a calma e a finitude do espaço.

Um livro, um café, um sofá, uma Brisa do Liz. Não sabem o que é uma Brisa do Liz? Não sabem o que perdem. Como nunca será a mesma coisa se a encontrarem, um destes dias, à venda em Vancouver provem uma à passagem por Leiria.

Há muitas mudanças em curso no processo de fabricação, embalagem, distribuição e conhecimento pessoal dos livros que se editam e vendem e vemos editoras a descartar pessoas com experiência e dedicação de décadas.

Não gosto mais de uma parede pós-moderna do que de um muro de granito em ruínas. Não podemos colar musgos e líquenes e eles são precisos. Há um tempo, há rituais e há segredos nas grandes questões. Se olharmos para a História, para os pequenas nadas, fruto da fragilidade humana, que se tornaram grandes marcos históricos, sabemos que na grande arquitectura que suporta o mundo está um saber feito de equilíbrio entre experiência e inovação.

Quando as Finanças nos falam como se fossemos crianças e a Cultura se cala como se não fosse custo maior o da incultura, não há Requiem que nos salve a alma.

A Cultura mora nos livros e estes precisam das mãos, e dos espíritos, que os escolhem e que os anunciam para que cada um encontre neles a sua luz.

As livrarias são como as fadas: morrem se deixarmos de acreditar nelas.

PS. Meus caros leitores peço-vos que nada disto comenteis, em casa ou no vosso trabalho. Não há nada como um segredo, mesmo que de polichinelo, para espicaçar a curiosidade. Nada digais destas lojas de livros, mantenhamo-las secretas, proibidas se preciso for, para que permaneçam apetecíveis.

Sílvia Alves

January 18, 2012   No Comments