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Category — crónica

Crónicas Os Meus Livros – Um Sul a Norte

Viagens

Fevereiro, no Norte, junto ao mar.
Correntes d’escritas ano quarto da minha memória.
Cinco palavras: “agradecer, começar, partir, coexistir, consistir” de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto. Palavras podem ser chaves, compete a cada um descobrir que portas com elas conseguirá abrir.
Cai-nos no colo a frase de Sophia que, como bem observou, vale toda uma vida literária: “Navegar sem o mapa da viagem que fazíamos”. E depois a avó Aurora e a mãe Sofia, duas mulheres, ambas viajantes, cada uma a sua maneira. Uma dentro de casa onde recebe o mundo, outra virada para o mundo onde procura a casa. E sob a afirmação de que teríamos desaparecido se não tivéssemos partido quase parece atirar-nos para novas idas. Mas isto já são reflexões partilhadas nos degraus do auditório que se vêm repletos de gente logo desde o primeiro dia. Cada um vê o que quer. Somos portugueses, os iletrados da história, os improvisadores do destino.

Do Brasil veio Rubem Fonseca, escritor admirado por muitos, subitamente ao abrigo de qualquer maldição ou desconforto pela ousadia da sua escrita. Um escritor que se recusa e por isso se torna desejado. “Sou peripatético…” Diz e lá vai deixando cair o discurso rigoroso do improviso ensaiado da idade e da experiência. Leu Camões, proclamou amor à Língua Portuguesa e emocionou a plateia, mas emoção maior foi a lembrança de, no ano passado, Juva Batella a dizer, num tom corrido, de cor, de coração, a Toada de Portalegre, de José Régio.

O escritor de Rubem Fonseca, “louco, alfabetizador, motivador, paciente, com imaginação”, é paciente em busca de palavra certa. Não há sinónimos, diz, “uma palavra não vale outra do mesmo significado”. Paciência e tempo para experimentar cada uma como um vestido justo em corpo de mulher numas correntes que começaram sob o signo das mulheres que marcam sempre o destino dos homens que traçam o seu destino de mulheres mais do que deviam. Um estranho poder desperdiçado, o delas. Ao ler “Humilhação e Glória” de Helena Vasconcelos, ou a olhar à nossa volta, sabemos que não estamos tão longe quanto devíamos estar desse tempo de feminino cinzento.

Eugénio Lisboa leva-nos em périplo sobre os ganhos dos escritores fazendo-nos sorrir perante muitos pesos, muitas medidas no pagamento da escrita.

Estavam todos a contar connosco e nós a contar com eles. Não posso nomear todos. Mas impossível esquecer a força telúrica de Ana Paula Tavares. Um brilhante texto tecido com a emoção na voz a dar corpo às palavras.

Ao fundo estende-se o mar. Tanta água como a que João de Melo guarda na memória para ainda rescrever a infância no acerto da vida. Todos os escritores e poetas são arrumadores da infância, nisso gastam rios de papel para conseguir a vasta obra ou um pequeno pedaço de papel onde escrevem uma frase, a frase, a sua, que pode demorar uma vida a achar, para dizer à beira do naufrágio que é a morte: mãe, pai era isto que eu tinha para dizer. Se dito será ouvido.

Relembro a viagem dos ancestrais de Moacyr Scliar, por ele tão bem contada, uma última vez. E, no mar, ainda podemos ver ao longe um sonho magnífico contado nas palavras e nos gestos de Malangatana. E, do fundo das águas, Rui Costa regressa na poesia dita por Margarida Vale de Gato. É assim a vida passante, as memórias são de quem as apanhar e guardar. Não servem a nada a não ser para castelos de areia que ficam guardados dentro dos olhos.
O nunca mais é a batalha de cada manhã e de cada fim de tarde. E nesse arco de sol se inscreve uma linha de vida que só faz sentido nas múltiplas formas de ser partilhada.
Rui Zink traduz a versão poética da mulher/mãe da Ana Luísa Amaral. Sabe bem ver que nas tréguas que a póvoa permite eles se lêem uns aos outros.
João de Melo, o primeiro escritor que ouvi ao vivo num já longínquo ano, no Museu Nogueira da Silva, em Braga, disse na altura de falar do seu mister ter perdido os seus papéis. Onésimo logo avisa, num registo sempre bem-disposto, que convoca cada vez mais seguidores, que a desculpa já tinha sido gasta mas sendo verdadeira que lhe restava? Ouvi-lo foi uma prova do seu talento, a relembrar o encantamento com o seu primeiro livro, “Gente Feliz com Lágrimas”. Ficou a vontade de o reler, ao fim de todos estes anos.

Por vezes sofremos com a verdade ou com a sua ausência. A verdade nem sempre pode ser inteira. Alguns cortam-na às fatias e assim ela parece menos pesada, menos perigosa, mais inócua também. E quem junta dois pedaços da verdade pode até ser que não o faça pela ordem do corte e leia uma nova verdade.

Numa escola. Num dos muitos encontros com alunos, Onésimo falou da importância da leitura. “Leiam, leiam…” que lá fora (da escola) o saber ler é uma arma contra a exploração. João de Melo diz que não se separa dos livros, como não se separa da sombra e que a leitura é também uma questão de voz, João de Melo o relembra perante essa jovem plateia. Tudo o dito nos chega com esse acrescento, a voz do criador das palavras, o seu gesto, o seu jeito de olhar. E mais um episódio do Onésimo (os episódios dele, todos sabem darão um dia um longo caderno de risos entre e sobre coisas sérias). Um aluno surdo, fazia leitura labial, questionado no final da aula sobre dúvidas aponta a vaga dificuldade de entender o seu sotaque.

Muito talento genuíno que ali se passeia bebeu palavras escritas. Reinventou-as. Acrescentou o mundo. Mesmo para destruir e fazer de novo e diferente é preciso conhecer o já feito.
É preciso dizer, até que alma doa mas a mensagem passe, que os livros são bens essenciais como a comida e ar que respiramos. Podem ser os livros em todos os formatos mas a leitura só pode ter a forma do silêncio e da calma.
É de leitores que as Correntes se fazem. Leitores as Correntes farão.

Um vereador da Cultura, que devia ser franchisado, sintetizou afoito, em meia dúzia de palavras toda a nossa inquietação com a cultura de ministério, de secretaria, de secretária, de vão de escada, de rua ou lá o que será e se verá(?). Melhor que tivesse sido António Sousa Homem o escolhido, sempre lhe dava para explicar, pacientemente, o porquê das coisas serem assim ou já não serem.

O mar enrola tudo num ruído, muitas palavras resistem pelo tempo como rochedos e outras partem-se em areias… Tudo são marés que apenas os nossos olhos levam. É de efémero que estes encontros se constroem. Como um teatro, como poetas fingidores a fingirem tão completamente. Na verdade não nos interessa a nós que seja dor ou riso. Apenas queremos que seja genuíno o fingimento, que aquelas palavras nos toquem, pela viagem, ou pela emoção, pelas respostas ou pelas perguntas que trazemos.

Porque o mapa de ontem já não nos serve inteiramente na viagem de hoje, refazemos o mapa e a viagem navegando sempre.

“Quanta fronteira parada
À espera de uma passagem
Que enfim invente uma estrada
Onde agora só o grito
É a viagem”

De uma canção dedicada à memória de Violeta Parra; Projecto Periplus – Deambulações Luso-Gregas; de Amélia Muge e Michales Loukovikas

Março, no Sul, junto a outro mar.
Biblioteca de Faro onde esta crónica se encerra.

Sílvia Alves

March 17, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – O Eugénio dos Livros

Ele’génio

Sinais de alerta. O sangue tornou-se-lhe espesso como areia quente e a vontade revelou-se como uma manhã – sim… tinha acabado de ler Truman Capote quando, em plenas Correntes d’Escritas, Eugénio sentiu a compulsão da escrita.
No fundo a escrita sempre estivera no espaço intermédio entre os olhos que leem e o cérebro que entende, como um filtro que gosta de transformar os textos visionados em novas ideias digeridas e amalgamadas que, separadamente, Eugénio considerava «escrita cerebral» ou «manifestação de criatividade». Felizmente, e até então, sempre a compulsão tinha estado controlada pela dose adicional de preguiça com que fora dotado à nascença; mas naquela hora, sentado na desconhecida cadeira no auditório da Póvoa de Varzim a ouvir a magia da escrita a transformar-se em som, Eugénio cedera à tentação: decidira tornar-se escritor. Mesmo antes de escrever, claro está.
Era letrado – lera imenso, o que aos olhos de editores como Maria do Rosário Pedreira seria a certeza de poder ser um escritor −, tinha coisas para dizer («muitas» sentia ser exagerado dizer), tinha imaginação, paciência e perseverança. Pelo menos assim o achava e quando ouviu falar da página em branco, já se imaginava de crise em crise/ de dor em dor/ no vívido estado de alma/ que era o do escritor. Eugénio sentia que a escrita passava a ser a sua grande pulsão, a sua forma de ser (e aparecer). Sonhava um dia estar sentado naquelas cadeiras, em cima de um palco com centenas de professoras atentas ao mínimo suspiro literário.
Oh, como seria bom agradecer à organização, dizer que não preparara nada para, logo de seguida, começar a falar de improviso sobre a escrita, esse amigo dos tempos noturnos.

Chamem-me Eugénio. E fala-me ó Musa, desde homem astuto, que num lugar de Lisboa, de cujo nome não me quero recordar, pela palavra criou a luz…

A.V.
Antes de AV não existia Eugénio. Por isso, AV criou Eugénio e todas as coisas que o envolvem. O céu, os livros, a mãe e as árvores, os amigos estranhos e restantes animais do blog. Por isso, mensalmente existirá Eugénio no blog da Os Meus Livros. E tudo isso por obra de AV.

February 29, 2012   1 Comment

Crónicas Os Meus Livros – Matrisokas

O purgatório do cadafalso

«Na sala ao lado a reunião decorria entre comentários dos diferentes intervenientes, a gargalhada alarve que marcava o intervalo entre os oradores e o fumo que pautava o ar por cima das cabeças, aquecidas pelo fulgor dos argumentos cruzados e pela sapiência que enrijece o crânio dos sapientes.»

Lera diversas a passagem mas não conseguia pensar em como transformá-la, fazer daquelas palavras uma fórmula eficaz contra todo o mal que a literatura lhe tinha feito, contra toda a expectativa criada no convite de um editor estranho e surpreendente, como era mr. Black, contra tudo e contra todos, desde que isso não implicasse reformular o seu modo de escrever, pensar e avançar.

Há muito tempo, long time, como lhe diziam os amigos regressados de outras paragens, há muito tempo, pensava, que a necessidade de satisfação atingira níveis preocupantes, ainda mais depois de ponderado o título de Dagerman e outras miudezas intelectuais.

O jantar correu bem. Depois, da mala castanha saiu um contrato feito de palavras quase intraduzíveis, mas que lhe garantiram serem um mantra especial concebido pelo xamã literário contratado para animar as hostes durante os dias da festa. Era o momento de experimentar um pouco de poesia, como quem se aventura pelas drogas mais temidas ao entardecer, só porque ainda há tempo para fazer algumas asneiras antes do final de mais um capítulo.

Durante tudo isto, na varanda em frente, o velhote que ali mora desde que o ilusionista faleceu, sentado num banco de madeira, olha em redor, como quem adivinha o futuro a chegar, apressado, esbaforido, fartinho de avisar e ser avisado…

Regresso ao texto «… aquecidas pelo fulgor dos argumentos cruzados e pela sapiência que enrijece o crânio dos sapientes». E acabo por adormecer, com a certeza de que nos sonhos mais repelentes encontrarei o ponto de fuga para que o desenho destas letras faça sentido.

João Morales
Imagem – Salvador Dali

February 23, 2012   1 Comment

Os Meus Livros de Fevereiro chega às bancas amanhã

Tal como explicámos aos diversos leitores que nos contactaram, um conjunto de problemas sucessivos, alguns deles sem solução, já que incluem o falecimento de alguém, levaram a um enorme atraso na edição de Fevereiro da revista Os Meus Livros, que vai para as bancas amanhã, Quarta-feira (embora só esteja em todo o país na Quinta-feira).

Como tema principal, um artigo de fundo sobre as grandes apostas para 2012, ou seja, um guia sobre os livros que não pode perder este ano, incluindo obras de ficção, não ficção e livros infanto-juvenis.

Quanto às habituais entrevistas, Isabel Zambujal, autora do recente Auto do Cruzeiro do Inferno, transporta Gil Vicente para os nossos dias e José Mário Costa, responsável pelo Ciberdúvidas, festeja connosco os 15 anos do projecto.

Gonçalo M. Tavares lançou novos livros e viu um dos seus trabalhos adaptado para audiolivro. Mais coordenadas para a geografia literária que tem vindo a criar.

Também novidade é A Tempo Inteiro, obra de ilustração assinada por Tamayo Marín, peça de um outro puzzle, este engendrado por Tiago Manuel.

A 23 de Fevereiro começam as Correntes d’Escritas, o mais importante encontro literário do país. Conheça os convidados e os temas deste ano.

As vidas dos reis e rainhas de Portugal suscitam grande curiosidade e dão origem a sucessivas biografias. Fomos tentar perceber porquê e conhecer as mais recentes.

Mais conhecidos pela sua actividade no jornalismo, Miguel Sousa Tavares e Clara de Sousa abrem-nos a porta da sua cozinha.

Capuchinho Vermelho; Bela Adormecida; Pequeno Polegar… muitas destas figuras nasceram na oralidade ancestral europeia e contam com diversas versões. A colecção Contos Maravilhosos Europeus desvenda-nos este universo.

Fernando Pessoa, Plural como o Universo, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, é a grande exposição sobre o universo pessoal do mais importante escritor português do século XX.

No que respeita à OML Júnior, presenças de peso, com livros de Nuno Markl, Carlos Ruiz Zafón e Carla Maia de Almeida, entre outras sugestões.

Além disso, as habituais recensões, notícias, tops de vendas, colunas de opinião regulares, a pré-publicação de Fantasporto Antologia de Ficção Científica (de vários autores, publicado pela Asa), e a crónica de Eduardo Sá. Como habitualmente, tudo óptimas razões para não perder O Guia da boa leitura.

February 15, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – Um Sul a Norte

A resposta

Mudanças. Podemos trocar de casa, refazer o armário da roupa, redecorar a sala e reinventar hábitos que nem sabemos se queremos manter.

Mas não trocamos de livros. Os livros, mais que tudo, enraízam-nos a um lugar, de muitas maneiras, não só no seu volume e peso. Não trocamos de livros. São insubstituíveis. É muito difícil decidir quais os que nos acompanham quando nos lançamos o desafio de ser um pouco nómadas. Levamos os lidos? Os que queremos ler? Os que ainda vivem na nossa memória? Os que guardam as palavras que nos norteiam a escolha de um caminho? Osque encerram os poemas ditos na voz de alguém e que ficaram para sempre cerzidos sobre um tempo e um lugar?

Viajamos até onde uma voz se ouve no meio da multidão que se silencia. E o tempo volta. Em cada estação.

A memória existe dentro de nós sempre tecida de palavras, escrita e lida para não ser perdida.

No meio dos livros.

Existe um sonho.

Ser árvore, perder folhas mas resistir ao Inverno.

Ver passar pessoas com as suas histórias cinzentas, sentada à mesa de um café numa rua da baixa.

Vaguear na cidade.

Entrar nas igrejas, religiosamente ateia, para mergulhar no silêncio que permite escutar o mais fundo da alma.

Seguir um rio, escolher a margem.

Marcaram-me, aleatoriamente, no calendário uma crónica para 14 de Fevereiro.

De que ano? Perguntas tu…

De que ano? Pergunto eu…

Pode ser 2012. Pode ser 2021.

Todos os anos e todas as estações servem para as árvores.

Está frio. Muito frio e na memória ainda o calor de um Verão.

Se a Primavera demorar talvez acabe a queimar os livros para derreter o gelo da morte.

Mas “O que é o Amor?”

O universo está cheio de perguntas.

São as perguntas que nos movem.

“O que é o Amor?”

Se houvesse resposta as bibliotecas estariam vazias.

“O que é o Amor?”

A resposta.

“The answer, my friend, is blowin’ in the wind…”

No alto das árvores rodeado de peixes, búzios e estrelas um homem inventa folhas.

Sentada na terra, uma mulher desenha flores.

O amor é um caminho se for vontade de dois caminhar.

A resposta.

“The answer, my friend, is blowin’ in the wind…”

Amanhã.

Sílvia Alves; 14 de Fevereiro
Imagem: Capa do livro O que é o Amor?; texto de Davide Cali e ilustrações de Anna Laura Cantone; Editora Gato na Lua

February 15, 2012   1 Comment

Crónicas Os meus Livros – Matrisokas

Um homem de palavras

Bateu à porta e o homem de barbas abriu. Sabia muito bem que ele viria, afinal, eram ambos cavalheiros de palavra. O acordo tinha tudo para ser respeitado, só faltava isso mesmo, ser respeitado. E o respeito pelos acordos está intimamente ligado ao que pensamos deles. Parece óbvio, não é garantido que o seja.
Morava naquele prédio há muito. Sabia de cor o rosto dos vizinhos mais antigos e a sonoridade dos que passavam à porta, uns mais apressados, outros com a calma de quem aproveita o sol. E tanto que ele era, depois do nevoeiro da manhã.
Em frente ao computador revia as provas do texto final, construído depois de muitas alterações e coisas soltas que, afinal, faziam parte. Mesmo as notas à margem, como a necessidade de separar as águas para ver mais claramente eram fundamentais em momentos de decisões e mudanças de rumo. Sabia, pela sua experiência de copista clandestino, que as palavras viajam pelos textos onde as colocamos e às vezes fogem-nos da mão, caem. Partem-se. Ou não. Relia o fragmento de Almada Negreiros que ia fazer parte da encomenda:

«Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não
viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta
côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.»

Retirou da gaveta do meio as coisas que faltavam, colocou tudo junto para não se esquecer e assinalou a amarelo as estradas menos concorridas. Sossego, era o que queria para a viagem.

Olhou para a fotografia de família e conferiu o número de série. 14489. Apagou a luz, saiu sem acordar os restantes elementos da equipa, malta cansada, depois da epopeia de transcrição que lhes ocupara tanto tempo, realizou a última evocação da noite e dirigiu-se à cama. Foi o tempo de se deitar e aconchegar até adormecer. Lá longe, já o chamavam e não gostava de fazer ninguém esperar. É como já se disse: os acordos são para respeitar.

João Morales

January 24, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – Capuchinho Branco

Ao dia certo

Cheguei ao dia certo, à hora certa, na altura exacta – na data em que tínhamos combinado.
Relacionei o que acontecera antes e experimentei a sensação contrária, a antípoda do atraso, do insensato, daquilo que por ventura terá sido menos correcto.

Tentei ser correcta ao máximo mas perdi-me na temática.
Na prática aqui estava eu, perdida entre árvores, ervas daninhas o chilrear dos pássaros, o sol de inverno e a caruma.
Por fora estava tudo bem, mas por dentro reviravam-se as tripas, as emoções, as perdas e as conquistas que ainda pertencem ao ano passado.

O que somos nós?
Presente? Passado? ou apenas a encarnação do verbo Sentir?

Um Livreiro deseja ser Futuro, ou pelo menos deseja conhece-lo de porta aberta.
Deseja que o presente seja um desafio honesto tal como um homem sério que dá a sua palavra.

De um emaranhado de leituras tricotei uma manta, não nos tapará do frio mas dará algum conforto agora no inverno.

Do fio que sobrou montei um trapézio para poder andar na corda bamba.

É nesta vida que me encontro e me reencontro sempre que um ano começa. É nesta vida que vivo desde que me deram um nome e reconheci nele pela primeira vez.

Tal como ontem, ou anteontem…
Hoje ao dia certo, cheguei à hora certa para trabalhar e lutar pela porta aberta.

Mafalda Milhões

January 11, 2012   No Comments

Os Meus Livros – Edição de Janeiro de 2012 – Hoje nas bancas

A primeira edição do ano da revista Os Meus Livros chega hoje aos pontos de venda. Em Portugal, o hábito de ler teatro em livro – as peças, o texto que sobe aos palcos – é diminuto, mesmo entre quem frequenta as salas de espectáculo Fomos tentar perceber porquê e o que fazer para mudar essa tendência. Leia as contribuições de Jorge Silva Melo, Eugénia Vasques, Miguel Real, Filomena Oliveira, Paulo Filipe Monteiro e Tiago Rodrigues. Descubra ainda dez peças obrigatórias e as últimas novidades editadas entre nós.

Duas entrevistas: Charles Esdaile acaba de publicar entre nós As Guerras de Napoleão, onde não poupa críticas ao estadista francês; Guilhermina Gomes, veterana colaboradora do Círculo de Leitores (e da Temas e Debates), distinguida como Editora do Ano em 2011, fala-nos de si e da actividade que abraçou.

Na sequência da declaração pela UNESCO do fado como Património Imaterial da Humanidade, um conjunto de livros para saber mais sobre esta música e a sua história; o quase obrigatório balanço do ano traz-nos as escolhas de 2011; do australiano Shaun Tan chega-nos a edição de Emigrantes, um prodígio de narrativa sem palavras; Idade Média e Guerra Santa, com assinatura de Umberto Eco e Nigel Cliff, realçam a vitalidade da História; e Tiago Salazar, na rubrica Outras Mãos, regressa a Uma Viagem Sentimental, de Laurence Sterne.

Na OML Júnior, uma espantosa versão de Hansel e Gretel; Um Chá não Toma um Xá, livro que vive dos jogos de palavras; Oinc! A História do Príncipe-Porco, a partir de litografias de Paula Rego e as Pistas e Pegadas, de Andreia Brites.

Além disso, as habituais recensões, notícias, tops de vendas, colunas de opinião regulares, a pré-publicação de Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero, publicado pela Porto Editora, e a crónica de Norberto Ávila. Tudo óptimas razões para não perder O Guia da boa leitura.

January 5, 2012   1 Comment

Crónicas Os Meus Livros – O Eugénio dos Livros

Resolução de ano novo

A mãe de Eugénio surpreendeu tudo e todos na noite de ano novo (se bem que só estavam reunidos os dois às doze badaladas, comendo sultanas e bebendo Champomi, que o estômago do Eugénio não é um bebedor nocturno) ao anunciar que iria escrever um livro em 2012.
«Mas um livro de quê, mãezinha?»
«Ora, um romance, claro», respondeu rosada a velha senhora.
Mas que raio?! A mãezinha não tinha nada para dizer, nunca teve uma vida plena e excitante, nunca lhe contou histórias de fadas quando ele era pequeno, não é leitora nem sabedora do que quer que seja. Vai agora escrever um livro?
«Tenho muita coisa p’ra contar, Géninho. Tod’uma vida interior qu’as pessoas irão querer muito saber.»
Eu, eu, eu, eu, eu. Nem estes dois escapam a fazer da escrita o mesmo que fazem das conversas. Todos queremos interromper para mostrar que sabemos, que existimos, que também temos algo para dizer.  Todos roubamos a palavrapara repetir …na verdade, isso recorda-me um outro episódio, julgo que em Paris, onde…as pessoas acham que têm coisas interessantes para contar por não pararem para ouvir as coisas interessantes que os outros nos contam. Em jeito de metáfora ridícula, não se resiste à compulsão de escrever como quem urina na árvore da cidade, previamente urinada por todos os cães na esperança de que o próximo pare para a cheirar. Enfim, espero que tenham lido isto com atenção, pois é muito importante.
Para Eugénio, se alguém ali fosse escrever um livro teria de ser ele. Ele, que lera milhares de livros e tinha dezenas de histórias brilhantes para contar, se se pusesse a imaginar um pouco. Ele, que tinha uma imaginação ímpar, associado a uma técnica que, embora ainda não experimentada, saberia ele ser superior à da maioria das pessoas. Não é ele um forte leitor, alguém que conhece os clássicos e lera a Poética de Aristóteles ainda antes dos 18 anos?
Entre a mãezinha e Goethe só diferem os resultados, diriamT. Mann e Kundera. Mas entre estes dois e vários grafómanos há a semelhança da solidão, do tempo livre, da necessidade de chamar a atenção do mundo, agora que os filhos (o marido, o estranho, a amante…) já não lhes ligam. Talvez fizesse bem a Eugénio voltar a ler Aristóteles,agora que é adulto, para ver se desiste desta ideia.
O que vale é que as resoluções de ano novo não são para cumprir, não é verdade?

A.V.
Antes de AV não existia Eugénio. Por isso, AV criou Eugénio e todas as coisas que o envolvem. O céu, os livros, a mãe e as árvores, os amigos estranhos e restantes animais do blog. Por isso, mensalmente existirá Eugénio no blog da Os Meus Livros. E tudo isso por obra de AV.

January 4, 2012   No Comments

Crónicas Os Meus Livros – Matrioskas

Perdido nos montes

«Andava fugido à família e aos amigos mais próximos, fruto de um desentendimento com um vizinho. Na origem esteve um pequeno riacho; há muito que a água que corre por onde bem entende serve de pretexto para brigas e mortes. Anotava num pequeno caderno os seus poemas ingénuos, dedicados à mulher de um outro vizinho, senhora de porte respeitável, com duas mamas apetecíveis e um…»
Do papel rasgado encontrado no bolso do velho não se podiam extrair grandes conclusões. Escritor afamado na sua terra, habitava naquela pequena casa do vale há pouco mais de meia dúzia de anos. Dava-se bem com toda a gente e, de vez em quando, havia festa rija lá por casa, com os habitantes mais próximos por convidados, mas também outros estrangeiros que habitavam pelo país fora, Não trocavam cartas, nem tinham Internet, mas todos sabiam a data dessas festas. Estranhas celebrações, pensou o jovem polícia destacado para o cadáver encontrado, enquanto escutava o filho do falecido, chamado de urgência.
Quando teve uns momentos fora de toda a confusão, aproveitou para ligar de volta ao amigo. O Fred estava com grandes problemas na sua vida e a chamada era um sinal de alerta.
– Ligou para o Fred, neste momento não há qualquer possibilidade de atendê-lo, mas não desista. A esperança de conseguimos falar com quem queremos é uma espécie de planta que deve ser regada, com os adubos mais estranhos e eficazes que consiga descortinar na sua imaginação.
Desligou. Claro. Ele nunca atendia uma chamada à primeira, era a sua maneira de ganhar tempo e fugir para mais longe, não fossem encontrá-lo e ter de reconhecer que tinha graves problemas.
Fred era vítima da sua cobardia, mas também um bom fiilho da puta. Nunca se sabia bem o que andava a tramar, com aquelas súbitas deslocações à terra do irmão (que nunca ninguém conhecera) e todas as…
Interrompeu os seus pensamentos com a chegada de uma mulher. Trazia na mão um volume de poesia. António Gancho:

«Faço um poema e nasce uma cidade/ invento o conteúdo geográfico das coisas./ Escrevo um nome e nasce Dublin/ porque Dublin escrevi./ Se onde ponho um traço nasce uma via de ferro/ então é um comboio em direcção a Roma»; como nos versos iniciais de Ilustrazione.
Num momento, estava ali; noutro, já não sabia bem. Eram quatro minutos que podiam dar cabo dos nervos ao mais experimentado investigador. Os cenários apenas lhe serviam para desenhar a vida, espalhar as manchas de tinta com que se podiam desenhar flores, para ilustrar as composições poéticas encomendadas pelo analfabeto. E, antes de mergulhar em 2012, novamente António Gancho: «Os intelectuais soen muy ben zurrar/ na literatura na poesia no café/ Ai how ridiculous ridiculous they are/ é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?».

João Morales

December 31, 2011   No Comments