Crónicas Os meus Livros – Matrisokas
Um homem de palavras
Bateu à porta e o homem de barbas abriu. Sabia muito bem que ele viria, afinal, eram ambos cavalheiros de palavra. O acordo tinha tudo para ser respeitado, só faltava isso mesmo, ser respeitado. E o respeito pelos acordos está intimamente ligado ao que pensamos deles. Parece óbvio, não é garantido que o seja.
Morava naquele prédio há muito. Sabia de cor o rosto dos vizinhos mais antigos e a sonoridade dos que passavam à porta, uns mais apressados, outros com a calma de quem aproveita o sol. E tanto que ele era, depois do nevoeiro da manhã.
Em frente ao computador revia as provas do texto final, construído depois de muitas alterações e coisas soltas que, afinal, faziam parte. Mesmo as notas à margem, como a necessidade de separar as águas para ver mais claramente eram fundamentais em momentos de decisões e mudanças de rumo. Sabia, pela sua experiência de copista clandestino, que as palavras viajam pelos textos onde as colocamos e às vezes fogem-nos da mão, caem. Partem-se. Ou não. Relia o fragmento de Almada Negreiros que ia fazer parte da encomenda:
«Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não
viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta
côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.»
Retirou da gaveta do meio as coisas que faltavam, colocou tudo junto para não se esquecer e assinalou a amarelo as estradas menos concorridas. Sossego, era o que queria para a viagem.
Olhou para a fotografia de família e conferiu o número de série. 14489. Apagou a luz, saiu sem acordar os restantes elementos da equipa, malta cansada, depois da epopeia de transcrição que lhes ocupara tanto tempo, realizou a última evocação da noite e dirigiu-se à cama. Foi o tempo de se deitar e aconchegar até adormecer. Lá longe, já o chamavam e não gostava de fazer ninguém esperar. É como já se disse: os acordos são para respeitar.
João Morales

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