José Mário Silva em Três Perguntas
Dando continuidade a esta iniciativa semanal do blogue da revista Os Meus Livros, o entrevistado de hoje é José Mário Silva, jornalista, coordenador das páginas de livros do Atual (suplemento do Expresso), colaborador da Ler e responsável pelo blogue Bibliotecário de Babel. Já publicou livros de poemas (com “Nuvens & Labirintos” venceu o Prémio Literário Cidade de Almada) e de micro-narrativa (“Efeito Borboleta e Outras Histórias”).
Estudaste Biologia, acabaste a escrever sobre livros. Como se deu essa reviravolta?
Não foi bem uma reviravolta. Eu já escrevia muito e lia muito, antes ainda de começar os estudos de Biologia. Depois, o curso superior na área científica foi uma experiência importante (não me arrependo) mas percebi logo que não nasci para aquilo. Gostei muito de algumas coisas (certas disciplinas, certos professores, as saídas de campo) e nada de outras (o trabalho laboratorial, por exemplo). A meio do curso, já era claríssimo que o meu coração estava longe dali. Estava no jornalismo, primeiro. Estava na literatura, depois. Está no jornalismo e na literatura, agora.
Quem te conhece, refere várias vezes a capacidade de leres em qualquer circunstância. Qual terá sido a situação mais improvável onde já deste por ti a ler?
Realmente, já dei por mim a ler nas situações mais improváveis: em carruagens de metro cheias como latas de sardinha; em manifestações de estudantes; na proa de um veleiro, com salpicos de espuma e rajadas de vento semi-ciclónicas; no meio de uma festa tomada de assalto por uma dezena de crianças pequenas em alegre chinfrineira; à chuva; no cinema (durante os planos mais luminosos das apresentações dos filmes); durante RGA’s e reuniões de condóminos; etc. A situação mais caricata, e talvez mais perigosa, deu-se quando li pela primeira vez o livro “Dubliners”, de James Joyce. Ia tão absorvido pelo extraordinário conto final (The Dead) que cheguei ao fim do trajecto de autocarro, desci e continuei a ler enquanto caminhava pela rua, sem me dar conta do que se passava à minha volta. Acho que foi uma sorte não ter sido atropelado.
Publicas o que escreves em diversos meios. Qual é maior dificuldade de lidar com essa situação?
É a dificuldade comum a todos os freelancers: organizar e rentabilizar, em termos de trabalho efectivo, o tempo disponível. Infelizmente, as horas não esticam. E nós, os escravos do recibo verde, não nos podemos dar ao luxo da dispersão. Mesmo quando nos distraímos, tenta-se que essa distração seja útil. Eu, por exemplo, quando navego pela Internet estou sempre alerta, atento a material que dê para mais um post no meu blogue.

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[...] O João Morales, director da revista Os Meus Livros, colocou-as. E eu respondi. [...]
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