Crónicas Os Meus Livros – Posologia Literária
Como anunciámos, terça-feira é dia de crónica, aqui no blogue da revista Os Meus Livros. Começamos hoje com “faramacologia LIterária, coluna que será assinada por Paulo Ferreira, consultor editorial e um dos sócios da Booktailors.
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Consulte atentamente esta bula antes de ler “Para Interromper o Amor”(Quetzal), de Mónica Marques , escritora com um pé em Portugal, outro no Brasil e o coração algures no meio do Atlântico. Voz à personagem (personagem?): «Sono. Música e sono e barulho de motor de avião. Sinto-me a morrer de amor. Quantas foram as vezes que já atravessei o mar a morrer de amor?»
O seu primeiro livro, “Transa Atlântica” (Quetzal; 2008), foi bem recebido pela crítica. A forma despudorada como fala de sexo talvez tenha ajudado.
O que deve saber antes de ler “Para Interromper o Amor”
É um livro que fala sobre a vida. A vida de António, João e Numa, mas também podia ser a sua. É um livro de “fufas” que não são “fufas”, amores que raramente são contacto e suor, e às vezes não são mesmo nada disso. São o amor e o seu contrário, são o sexo e os seus substitutos.
O que deve saber acerca de “Para Interromper o Amor”
Deve saber que é um livro de escrita desbragada, sem grandes reservas, como é o amor. Antes de ler o livro, e se já conhecer a obra da escritora (em livro, nos artigos de imprensa ou no blogue Sushi Leblon), poderá ter tendência para querer, na frase anterior, ler “sexo” onde está “amor”.
O que é “Para Interromper o Amor” e para que serve
Para nos pormos a pensar na vida. Ver o amor onde dantes víamos a calçada.
Interacções literárias de “Para Interromper o Amor”
Um pouco de Roth. Ou antes, muito Roth: nos diálogos, na ligação do sexo ao amor ou de como, não estando necessariamente ligados, podem ter tudo que ver. O linguajar e o vocabulário do português do Brasil.
Efeitos secundários
Sem tempo para grandes experiências com adultos (não é um livro para crianças), verificou-se por vezes:
— mal-estar generalizado, com pitadas de pequena loucura e profunda noção de consciência, com compulsão para meditações sobre a vida, o amor, o que é o amor e para que serve afinal o sexo. Desejo de evasão. Querer que Mónica Marques pare de nos agredir. Era só sexo, nunca pensámos que fosse amor — às vezes o contrário. Se o amor assume diferentes formas, não é o sexo que vai contornar o que seja. Se o sexo assume diferentes formas, não é o amor que vai contornar o que seja.
— vontade de googlar “Pedro Mexia” só para ver o que aparece.
Posologia
Moderada, se sentir algum dos seus possíveis efeitos secundários. Em caso de persistência dos sintomas, contacte alguém de quem goste. E diga-lhe isso mesmo.
Se ler mais do que deveria de “Para Interromper o Amor”
Consulte a secção “Efeitos secundários” (ver supra). A tendência é para delas padecer em dobro.
”Para Interromper o Amor” em idades mais avançadas
A menos que se chame Rentes de Carvalho, não o faça.
Se tem algum livro que queira submeter à bula médica, poderá sugeri-lo para paulo.ferreira@booktailors.com

2 comments
E pá, Paulo, pá, bigado, pá, és um bacano, sempre a puxar a brasa à sardinha da Quetzal, pá! És um fofo! Olha, estamos a pensar mudar o título do teu livro para “Asco, uma história de amor”, pode ser? ‘Braço, pá!
Tchico
Em muitos sítios, a crónica é algo que se situa entre o jornalismo e a literatura. Em Portugal, está entre a publicidade e o descaramento. Ainda bem que o Paulo Ferreira não é médico a sério, nem a Quetzal uma grande farmacêutica, assim ninguém tem de se chatear com questões de ética.
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