Pedro Almeida Vieira em Três Perguntas
Iniciamos hoje uma nova etapa do blogue da Os Meus Livros, com algumas rubricas fixas em cada dia. Às quartas-feiras teremos “… em Três Perguntas”, uma entrevista-relâmpago falando sobre alguém e o seu trabalho.
A iniciar, Pedro Almeida Vieira. Licenciado em Engenharia Biofísica, foi jornalista e colaborou com o Expresso, Fórum Ambiente, Grande Reportagem e Diário de Notícias. Recebeu três prémios de imprensa e o Prémio Nacional do Ambiente “Fernando Pereira”. É autor de “O Estrago da Nação”, um ensaio jornalístico sobre o estado do ambiente em Portugal, e dos romances “Nove Mil Passos”, “O Profeta do Castigo Divino”, “A Mão Esquerda de Deus” e “Corja Maldita”.
Está a criar uma ambiciosa base de dados sobre o romance histórico no seu site. Fale-nos um pouco sobre as possibilidades deste projecto e as maiores dificuldades em levá-lo a cabo.
A base de dados BiblioHistória é sobretudo um desafio – e quando assim é, esquecemos eventuais dificuldades. Começou por ser uma forma de ordenar a minha colecção de romances históricos, mas está a tornar-se um projecto aliciante que, pela quantidade de informação, também demonstra que o chamado género histórico – muitas vezes rotulado em Portugal com um selo quase pejorativo – é afinal, desde o século XIX, aquele que mais tem produzido obras de grande qualidade. Obviamente que há muito «lixo» literário – por exemplo, nas primeiras décadas do século XX, o romance histórico, folhetinesco, era o mais lido e com autênticos best-sellers, como são os casos das obras de Campos Júnior e Rocha Martins, entre outros, que vendiam dezenas de milhar de exemplares –, mas se se reparar quase todos os grandes nomes da literatura portuguesa escreveram obras no género histórico. No século XIX temos os casos de Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e até Eça de Queirós. Na segunda metade do século XX, e até aos nossos dias, temos os casos de Agustina Bessa-Luís, Mário de Carvalho, João Aguiar, Miguel Real, Fernando Campos, Mário Cláudio, etc., etc.. E, claro, não nos esqueçamos: José Saramago: sete dos romances do nosso único Prémio Nobel são romances históricos ou com um fundo histórico (se incluirmos aqui o Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim).
Outra das razões para empreender o BiblioHistória foi a lacuna de informação existente em Portugal sobre aquilo que se vai produzindo. Esta base de dados poderia servir como modelo para outras similares, de outros géneros – ou mesmo para toda a literatura nacional.
O lançamento do seu último livro, “Corja Maldita”, foi acompanhado de uma promoção bastante original, explorando os limites da relação entre ficção e realidade. Pode falar-nos um pouco sobre o que foi feito?
A promoção do “Corja Maldita” foi relativamente modesta, apenas para chamar a atenção do romance – ele, sim, explora os limites entre ficção e realidade. Em alguns aspectos, o narrador do “Corja Maldita”, o diabo, deseja demonstrar que quer num ensaio quer num romance, sendo ambos escritos pelo Homem, está-se sempre perante obras de ficção – e que a verdade apenas dele sai, daí ele assumir ter escrito uma crónica e não um romance.
Obviamente, é uma provocação – aliás, o “Corja Maldita” está repleto de provocações. Mas não deixa de ser interessante observar como a realidade «decretada» pelo Homem é, tantas vezes , uma ficção, qualquer que seja a forma usada. De facto, é uma evidência que os ficcionistas assumem «enganar» os seus leitores – e, portanto, os leitores não devem acreditar em tudo (ou mesmo em nada daquilo que dizem ou escrevem), apenas olhando para as obras de ficção nos seus aspectos lúdico e estético. No entanto, os historiadores, em diversas situações, podem involuntariamente estar a relatar uma ficção, porque muitos documentos ou relatos que usam foram falsificados ou manipulados na origem, pelos «vencedores», sobretudo em séculos passados. Ou então, por razões ideológicas, de «simpatia» ou preconceito, darem apenas uma visão e interpretação parcial de determinado acontecimento.
Além do carácter lúdico, o Romance Histórico pode ser entendido como um complemento à aprendizagem da História?
Pode, mas sobretudo, na minha opinião, para melhor conhecer a natureza humana e confirmarmos que, ao longo dos séculos, pouco modificámos na forma de agir e de pensar. Apenas temos evoluído tecnologicamente, o que tem permitido, infelizmente em muitos casos, praticar actos mais vis. Por exemplo, muitos dos nossos conflitos recentes e guerras contemporâneas não tiveram géneses muito distintas daquelas que ocorreram em séculos passados. Hitler tem sósias em séculos passados; o nosso «azar» foi existir no século XX uma máquina de matar em massa mais eficaz. Os regimes fundamentalistas, que tanto nos chocam, no mundo muçulmano não se distinguem muito do regime imposto ao longo de séculos pela Inquisição no Mundo Ocidental. A perseguição dos judeus, o massacre de indígenas na América Latina pelos espanhóis ou tantas outras barbaridades em séculos passados não são muito diferentes das «limpezas» raciais em muitos dos conflitos em África ou nos Balcãs. Muitos dos nossos políticos, noutros contextos históricos, seriam tão ou mais violentos do que os seus antepassados. Costumo dar o exemplo, no contexto português, do marquês de Pombal: os seus actos, como primeiro-ministro despótico, fazem de Salazar um menino do coro – e no entanto, o marquês de Pombal tem uma estátua numa das principais praças lisboetas e enxameia a toponímia nacional. Contudo, se eu vivesse no século XVIII temeria mais ter José Sócrates como primeiro-ministro do que um Sebastião José de Carvalho e Melo.
Por isso, tendo em conta que os ensaios históricos não são muito apreciados pela generalidade dos leitores, os romances históricos podem servir, em certa medida, para reflectir sobre o nosso passado, para estarmos de atalaia no presente, porque na História da Humanidade nada é irreversível. Hoje vivemos em democracia em vastas regiões do Mundo, mas não podemos adormecer pensando que a paz é eterna.

2 comments
Adorei, parabéns pela entrevista-relâmpago! O romance histórico pode servir para “confirmarmos que, ao longo dos séculos, pouco modificámos na forma de agir e de pensar”. Bem dito! Viva o romance histórico!
[...] Blogue da revista Os Meus Livros publicou uma pequena entrevista a Pedro Almeida Vieira. Citação: “Apenas temos evoluído tecnologicamente, o que tem permitido, infelizmente em [...]
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